A ascensão do capital criativo

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Atualmente, vemos a ascensão e o fortalecimento de um novo tipo de capital, que gera valor econômico e riqueza, com base em ideias, informações e conteúdo que possam facilitar a vida dos seus usuários. Este novo tipo de capital não descarta todos os outros já existentes, pelo contrário, faz uso intensivo de todos eles para transformar ideias em negócios lucrativos em escala global. Estamos falando do capital criativo. O foco da nova economia do conhecimento foi deslocado da força do capital financeiro para a força das ideias. Esta mudança de eixo fez surgir uma nova classe de profissionais voltada para exercer funções criativas e com alto valor agregado em termos de inovação e conteúdo. Estes novos profissionais já representam, hoje, 30% da força de trabalho nos Estados Unidos e estão crescendo em participação em todas as grandes economias do mundo, superando em muitas cidades, inclusive, a emergente classe dos trabalhadores da indústria de serviços.

O capital criativo não pode ser considerado propriedade de nenhuma empresa, pois está diretamente vinculado à capacidade criativa individual. O que as empresas da economia do conhecimento devem e podem fazer é criar ambientes que possam atrair estes talentos, acenando com benefícios que sejam vistos como diferenciais e atrativos dentro da visão da classe criativa. Como o capital criativo tem caráter essencialmente pessoal, o indivíduo voltou a ganhar força e os talentos individuais estão sendo disputados com fervor pelas grandes empresas. A força motriz desta mudança é a ascensão da criatividade humana como agente central da economia e da vida em sociedade. Neste cenário, a criatividade nunca foi tão desejada e cultuada como nos últimos tempos. Portanto, não é de surpreender que a criatividade tenha se tornado o bem mais valioso na nova economia.

Essa mudança levou pessoas consideradas rebeldes e excêntricas, que atuavam à margem dos padrões sociais vigentes, para o centro da economia. O indivíduo criativo não é mais visto como uma voz isolada; hoje, é parte integrante da cultura dominante e vem ditando as regras de convivência e os comportamentos sociais seguidos pelas comunidades das quais fazem parte. Estamos vivendo um novo momento de renovação cultural, semelhante ao que tivemos na Itália, no final da Idade Média, durante a passagem para o Renascimento. Hoje, cidades criativas seguindo o modelo de Nova Iorque, Londres, Amsterdã, Dublin, São Francisco e Austin, onde o ambiente de diversidade e troca de informações atinge níveis globais, vêm atraindo cada vez mais pessoas desta nova classe trabalhadora. A cidade voltou a ser o centro de identidade das pessoas, espaço que até pouco tempo atrás era ocupado pelas empresas.

Estes chamados clusters criativos estão reunindo qualidade de vida, diversidade cultural, oportunidades de negócios e atraindo os novos trabalhadores da Era do Conhecimento. Os princípios básicos a serem seguidos pelas empresas para atrair esta nova leva de talentos são os seguintes: preservar a individualidade, dar liberdade para organizar o espaço e a agenda de trabalho, promover a diversidade de ideias e pensamentos, ser tolerante com as diferenças e promover uma cultura de questionamento em todos os níveis de organização. Todos estes fatores reunidos são fortes diferenciais para as empresas que desejam atrair e manter o capital criativo dentro de sua esfera de influência.

Durante muitos anos, o capital financeiro reinou absoluto na economia. Os chamados capitalistas, ou os donos do dinheiro, é quem comandavam a sociedade e ditavam as regras da indústria. Isso acontecia por conta de uma grande necessidade de financiamento para compra de máquinas e equipamentos, fundamental para fazer funcionar uma nova empresa. Os investimentos eram necessários, pois uma economia baseada em bens tangíveis também necessitava de uma fábrica tangível para produzir riqueza e valor econômico. Com o passar dos anos e com os grandes avanços tecnológicos, um segundo tipo de capital começou a dividir espaço com o capital financeiro. O uso intensivo de tecnologia alçou o capital técnico a um novo patamar, “dobrando” seu coirmão financeiro. Isto é, dominar recursos tecnológicos tornou-se um diferencial competitivo perseguido por todas as empresas.

Atualmente, os fundos de pensão e os grandes investidores internacionais estão oferecendo financiamento a juro baixo a qualquer empresa que se mostre viável e tenha boas ideias. Isto, não há dúvida, reduz o peso do capital financeiro como combustível da economia. Além disso, as novidades tecnológicas de hoje são “clonadas” a uma velocidade cada vez maior pelos nossos concorrentes, graças a práticas como a “engenharia reversa” e a “inovação aberta”, onde as novas tecnologias são devassadas e colocadas à disposição via internet para qualquer empresa em pouquíssimo tempo.

Sendo assim, estes dois tipos de capital, financeiro e técnico, deixaram de ser diferenciais para as empresas que os detém. Sozinhos, não conseguem mais gerar valor e riqueza para os seus proprietários. Isso fez surgir uma nova vertente econômica, a economia baseada em serviços. Este segmento econômico alimentou o crescimento de um novo tipo de capital, o capital emocional. Nas empresas de serviços, o que agrega valor e riqueza na cadeia econômica é a experiência do cliente, o que torna o engajamento emocional dos funcionários da empresa na missão de servir seus clientes com excelência um diferencial competitivo. Os serviços são, pela sua própria natureza, intangíveis. Nesse sentido, o que os faz ter valor é a sensação de satisfação deixada na mente dos clientes durante a experiência vivida entre eles e as pessoas da sua empresa.

Na economia de serviços, o capital financeiro e o capital técnico são meros colaboradores do capital emocional, pois é este que pode gerar memórias positivas nos clientes. Agora, o capital criativo parece ser quem está dando as cartas. E a perspectiva de longo prazo é que a conjuntura assim se mantenha por um bom tempo. É esperar para ver.

 


JORGE MENEZES / jorge.menezes@radarexecutivo.com.br

É professor e pesquisador, especialista no desenvolvimento de competências para liderança e metodologias criativas de ensino.

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