A força do mercado de arte no Brasil

2075
Compartilhar:
materia_710x375px

Apesar de ainda estar dando seus primeiros passos, setor vem apresentando uma expansão gradativa e sustentável. 

Alta liquidez e rentabilidade de obras de arte também tem despertado atenção de investidores, que enxergam o mercado com bons olhos.

Há segmentos econômicos que são pouco conhecidos e explorados pelos investidores, entre estes, o mercado da arte. A arte, no entanto, sempre despertou o interesse dos poderosos, seja para que os seus nomes de família estivessem associados à produção artística da época, como aconteceu com os Médicis durante o Renascimento, ou como uma boa forma de investir capital em um patrimônio fácil de transportar e com alta liquidez.

De maneira geral, os artistas sempre mantiveram uma relação conturbada com o dinheiro. Quando as famílias nobres, conhecidas como grandes patrocinadoras da arte, deixaram de financiar a prática, eles precisaram encontrar outra maneira de sustento. Foi devido a esta mudança que os artistas começaram a assinar as suas obras e a vendê-las diretamente a quem estivesse interessado. Antes, não havia assinaturas, já que toda produção artística pertencia ao financiador, ao mecenas, e não ao próprio autor. Além disso, muitos artistas prestavam serviços para a igreja e suas obras faziam parte de projetos arquitetônicos maiores. Portanto, essas produções não deviam ser assinadas, já que, na visão da igreja, só Deus tinha o poder de criar. Quando o humanismo ganhou força durante o Renascimento e a criatividade dos homens conquistou espaço, o valor econômico das obras de arte passou a estar vinculado ao nome dos artistas que as produziam.

Atualmente, há toda uma cadeia de produção e serviços construída em torno do valor monetário e artístico das obras de arte, que vai desde fundos de investimento, passando pelas galerias, marchands e casas de leilão – que chegam a movimentar trilhões de dólares anualmente em todo o mundo. Uma parte importante deste amplo processo são as galerias de arte, que promovem, vendem e muitas vezes assessoram jovens artistas na gestão das suas carreiras. O papel dessas galerias é fundamental, tanto na descoberta de novos talentos quanto no papel de especialistas que podem ajudar investidores/colecionadores que desejam atuar de maneira individual no refinado mercado da arte. Uma pesquisa intitulada “O Mercado da Arte Contemporânea no Brasil 2014”, conduzida pela Latitude Platform for Brazilian Art Galleries Abroad em parceria com a Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), nos traz dados reveladores sobre o dinâmico papel das galerias de arte na formação deste mercado no Brasil..

Um dos destaques notados no levantamento diz respeito à crescente profissionalização das galerias de arte brasileiras, com um aumento consistente do volume de negócios e a entrada de novos players no mercado. Percebe-se que o mercado de arte no país ainda é jovem, em franco processo de internacionalização, o que pode representar boas oportunidades para quem atua ou deseja atuar no segmento. A coordenadora da pesquisa e especialista no assunto, Ana Letícia Fialho, explica que o mercado de arte contemporânea registra crescimento desde o início da pesquisa, em 2011.

“As taxas de crescimento mantiveram na faixa de 20%, de 2010 a 2013, e acredito que ainda com o atual contexto econômico brasileiro, menos favorável, o mercado de artes siga uma expansão gradual e sustentável”, afirma. Na pesquisa realizada em 2014, um dado constata essa “jovialidade” do setor de galerias no Brasil: 33% das galerias pesquisadas foram criadas somente no início da década de 2000. Curiosamente, o mesmo percentual responde pela quantidade de galerias abertas após 2010. Hoje, as galerias nacionais representam um universo de aproximadamente mil artistas, dos quais 15% foram introduzidos no mercado pela primeira vez apenas em 2013.

Desde 2010, o faturamento das galerias pesquisadas vem crescendo a uma taxa média de 22,5% ao ano. Em 2013, 90% das galerias pesquisadas informaram ter aumentado o seu volume de negócios e, por conta disto, a média subiu para 27,5% naquela edição do levantamento. Os principais fatores apontados pelas galerias de arte brasileiras para este crescimento são: o crescente interesse internacional pela arte brasileira contemporânea, um melhor posicionamento das galerias como agentes importantes de negócios tanto no mercado nacional quanto internacional e o aumento do número de investidores e colecionadores.

Mesmo com tantos números positivos, ainda há barreiras para que o investimento em arte possa se tornar uma alternativa realmente atraente – e mais conhecida – para os que possuem capital para tal.”Seria muito bem-vinda uma política de incentivo fiscal para investimento em artes e doações para instituições de artes. Por exemplo, a França tem uma política de dedução do imposto de renda para empresas que adquirem obras contemporâneas, assim como dedução de impostos sobre herança para doações feitas pelos herdeiros a museus públicos. Isso faz com que seja um bom negócio doar para museus, assim como adquirir obras que passam a integrar o capital de uma empresa privada, por exemplo”, pondera Fialho.

Na visão da pesquisadora, uma das fontes desse sucesso está na excelência e diversidade da produção contemporânea representada pelas galerias de arte contemporânea no Brasil. “O setor também vem num processo crescente de profissionalização, alavancado por uma organização setorial, e iniciativas como a criação da ABACT e do Projeto Latitude. A visibilidade da produção brasileira no exterior é outro fator que contribui para o crescimento do mercado, criando novas oportunidades para as galerias no mercado internacional, e também contribuindo para o crescimento do interesse por parte de colecionadores brasileiros”, acrescenta.

Segundo os dados mais recentes, as vendas para o mercado internacional representam 15% do faturamento das galerias. Apesar de ser um número pequeno, há um aumento na diversificação do número de países que recebem as obras aqui produzidas. Em 2013, por exemplo, galerias brasileiras venderam obras para mais de 30 países. Os principais destinos são Estados Unidos, Reino Unido, França e Suiça.

É válido ressaltar que a influência de uma galeria não pode ser avaliada apenas pelo volume de negócios. Há outros fatores que precisam ser considerados quando avaliamos a sua dimensão no mercado, como infraestrutura, número de artistas que representa, quantidade de exposições realizadas anualmente, número de feiras nacionais e internacionais das quais participa, número de clientes investidores e colecionadores que tem em seu portfólio, etc. Além de tudo isso, a credibilidade da galeria perante os demais participantes deste mercado também é de suma importância.

Apesar de ser um indicador isolado, a Receita Bruta Anual é um dado interessante para que possa ser avaliada a dimensão deste segmento de negócio. Na última pesquisa realizada com as maiores galerias de arte do país, foi indicado que 64% delas tiveram uma receita bruta anual de até R$ 3,6 milhões. Mais: 31 % delas tiveram uma receita superior a este patamar. Percebe-se que o setor movimenta um valor expressivo, considerando que o público que investe em arte é pequeno se comparado a outros tipos de atividade.

DICAS PARA QUEM QUER INVESTIR

A recomendação inicial para quem deseja investir parte do seu capital em arte pode soar até um pouco óbvia: procure uma galeria bem conceituada, com visão de mercado. Esta galeria vai auxiliá-lo a montar um bom portfólio de obras, que tenha não apenas um alto valor artístico, mas que possa também, apresentar boas possibilidades de valorização no longo prazo. A pesquisadora Ana Letícia Fialho também dá alguns conselhos: “Acompanhar os movimentos do mercado, frequentar exposições nas galerias e nas instituições, frequentar as feiras, comparar preços, viajar, conversar com galeristas, curadores, estar sempre bem informado, estar atualizado sobre o que se passa no campo de interesse. Tudo isso é essencial para se investir, tanto no mercado de artes quanto em outros setores”, enumera.

Fica claro que o investimento em arte não tem muito espaço para curiosos ou amadores. Faz-se necessário um conhecimento profundo de arte e um olhar atento de investidor para que suas apostas no mercado possam dar o retorno esperado. Além disso, a valorização das obras raramente rende algum retorno no curto prazo. Outra forma de investir em arte é entrar em um consórcio de investidores. Funciona da seguinte forma: o consórcio contrata os serviços de especialistas em arte para assessorar nas aquisições e divide seu patrimônio através do sistema de cotas, onde cada investidor possui cotas equivalentes ao capital investido.

Como em qualquer outro tipo de investimento, obviamente também é preciso tomar alguns cuidados. Para Ana Letícia Fialho, estabelecer uma relação de confiança com os “conselheiros” é um bom início. “O bom galerista sabe orientar os seus colecionadores, sobretudo os iniciantes, e pode ajudá-lo nas escolhas, não só do ponto de vista financeiro, mas também na formação do gosto, no desenvolvimento do perfil de uma coleção, que seja um bom investimento, mas que também tenha a ‘cara’, o perfil de seu dono. O galerista pode ser um ótimo parceiro do colecionador, um parceiro a médio e longo prazo, inclusive”, afirma.

Parceiros: