Da lama ao cais: a revitalização dos portos urbanos

693
Compartilhar:
matéria_710x375px

Retomada econômica e turística da região portuária do Recife reacende debate sobre importância dessas áreas nas grandes cidades.

Radar Executivo entrevistou gestor do projeto e listou exemplos de portos que foram recuperados ao redor do mundo.

Algumas das maiores cidades do mundo nasceram em volta de importantes portos comerciais. Esta localização estratégica garantia um fluxo constante de riquezas que vinham em forma de mercadorias oriundas de vários continentes. Esta vocação para o comércio manteve os portos como importantes centros de troca e fez das cidades que cresceram ao seu redor um florescente ambiente para as artes, para a produção de ideias e para o convívio das pessoas mais desbravadoras e aventureiras da sua época. Na capital pernambucana, não foi diferente.

A região do Recife Antigo está de cara nova; os antigos armazéns do Cais do Porto, antes decadentes e abandonados, estão sendo restaurados e devolvidos para população e para os milhares de turistas que visitam o Recife todos os anos. O projeto, denominado Porto Novo, está mudando a paisagem da região. A revitalização portuária envolve uma área de aproximadamente 35 mil m2 localizados em trechos antigos entre os bairros de São José, Cais de Santa Rita e Bairro do Recife.

O projeto para a área, explicou à Radar Executivo um dos gestores da obra, buscou inspiração em iniciativas de sucesso feitas em outras cidades brasileiras e até do mundo. “O desenho do Porto Novo Recife foi inspirado nos projetos do Brasil, como o da Estação das Docas, em Belém, e também fora daqui, como o de Puerto Madero, na Argentina. Os dois são exemplos de como a requalificação das áreas portuárias e de áreas históricas podem impulsionar o turismo”, afirma Eduardo Lemos, representante do empreendimento.

Em tempos idos, os portos eram o local de encontro de pessoas vindas de todos os lugares e isso fazia deles um fervilhante ambiente que conseguia reunir em seu entorno boêmios, navegadores, comerciantes e todo tipo de diversão proibida. O projeto para a reforma da zona portuária recifense tem como meta justamente a revitalização da área e sua requalificação para usos mais produtivos, atraindo investimentos de empresários privados dos segmentos de gastronomia, lazer, serviços, negócios e alta tecnologia, tornando-se com isso o centro nervoso da economia criativa no estado.

O projeto irá recuperar oito armazéns, dois pátios e o prédio desativado da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Estas unidades serão transformadas em espaços que irão receber uma marina, hotéis de luxo, centro de convenções, escritórios comerciais, centro cultural, centro de exposições, cinemas, bares e restaurantes. Os primeiros empreendimentos – como a Central de Artesanato, o Cais do Sertão e um centro gastronômico – já saíram do papel. Está prevista ainda a construção de vagas para estacionamento e um sistema de transporte público integrado à rede municipal. A cidade nasceu na beira do cais e, durante anos, esta região foi o centro de troca e comércio mais ativo do país.

Para Eduardo Lemos, o projeto Porto Novo Recife traz vários diferenciais, sendo um deles a harmonização com o cenário e as construções tradicionais daquela região da cidade.”O projeto está dividido em quatro setores distintos, porém integrados. O primeiro corresponde ao Armazém 9, onde serão implantados escritórios. Os armazéns 12, 13 e 14 definem o setor 2, que representa o Armazéns do Porto, inaugurado em outubro. O cais onde existiam os armazéns 15 e o da Conab ficou reservado para o setor 3, onde será construído um hotel e marina internacional. Já no setor 4, onde hoje estão os armazéns 16 e 17, ficará o centro de convenções”, resume. Ao todo, quatro pontos-chaves descrevem bem os projetos de revitalização portuária em todo o mundo.

  1. Fortalecer o poder do lugar;
  2. Parcerias público-privadas;
  3. Diversificação e ocupação criativa do espaço urbano;
  4. Estratégias de crescimento verde.

Após anos de dominância como principal ponto de encontro das grandes cidades, os portos tiveram uma fase de decadência, suas estruturas foram abandonadas e o seu brilho como centros de troca comercial e de cultura enfraqueceu. Tal fase de abandono, contudo, está ficando para trás e começa a virar passado em muitas cidades importantes na Europa, na Ásia, nos Estados Unidos e por toda América Latina.

Hoje, os portos das principais cidades marítimas estão recebendo maciços investimentos privados e estão atraindo as atenções dos turistas e melhorando a qualidade de vida dos moradores dos grandes centros urbanos. Trata-se de um movimento mundial, que segue um padrão de sucesso e implantação planejado, tendo como principal objetivo utilizar a história local destas áreas recuperadas e suas belezas naturais para trazer de volta todo o seu esplendor. No caso do Recife, o gestor do projeto de revitalização, Eduardo Lemos, pontuou qual foi o critério de escolha para a seleção das empresas que iriam se instalar nos armazéns reformados.

“Fizemos uma pesquisa de mercado, realizada pelo Ibope Inteligência, e identificamos algumas carências. O mix foi pensado para atender a demanda da região, que estava carente de mais opções de bares e restaurantes. Ele atende desde quem quer fazer uma refeição rápida na hora do almoço, um encontro de negócios, um happy hour no fim da tarde e também para quem deseja curtir a noite. O Bairro do Recife foi um grande polo de entretenimento nos anos 90 e agora deve resgatar essa vocação”, conta.

A seguir, a Radar Executivo separou alguns exemplos de sucesso ao redor do mundo no que diz respeito à revitalização de zonas portuárias. A receita de sucesso para esses projetos segue um padrão interessante: unir diversão, gastronomia, cultura, história, conservação ecológica e negócios. Tudo em um mesmo lugar.

 

ÁFRICA DO SUL – CIDADE DO CABO
A Cidade do Cabo foi a primeira cidade de colonização europeia na África do Sul. Cresceu como um posto marítimo avançado, uma colônia holandesa incrustada no coração da África. Sua vocação comercial fez com que o seu porto fosse visto como um ponto estratégico para expansão dos interesses holandeses naquele país. O projeto de revitalização do porto requalificou toda a área costeira da cidade transformando-a no seu principal polo turístico, atraindo navios de cruzeiro de várias empresas do mundo. A revitalização aproveitou os prédios industriais abandonados e as instalações portuárias, além de promover o tombamento histórico e cultural de mais de 30 monumentos nacionais que estavam em situação de abandono e esquecimento. Entre eles, várias edificações vitorianas antigas, como a prisão Breakwater, que foi alugada pela Universidade da Cidade do Cabo e convertida em Escola de Negócios. Na frente cultural foram inaugurados um Museu Marítimo, galerias de arte, anfiteatro e a Nelson Mandela Gateway, ponto de partida de cruzeiros para a Robbin Island, ilha onde Mandela e outros prisioneiros políticos ficaram confinados durante o regime do apartheid.

ARGENTINA – BUENOS AIRES
Porto Madero, a antiga região portuária da cidade, passou por fortes mudanças nos últimos anos. Do total abandono para uma dinâmica economia baseada no turismo e na gastronomia. A obra, iniciada em 1990, devolveu à cidade uma região histórica com a qual a população de Buenos Aires tem uma intensa relação afetiva, já que o município praticamente nasceu à beira do cais. Após a revitalização, a região passou a atrair fortes investimentos imobiliários, desde edifícios comerciais, hotéis de luxo e também unidades residenciais de alto padrão. O porto foi transformado, mas manteve as características originais: antigos armazéns de tijolos vermelhos foram totalmente preservados e recuperados, sendo adaptados para novos usos. Entre eles: escritórios, academias, bares, cinemas e restaurantes. O novo calçadão da orla da cidade é um convite ao lazer e ao convívio social. Os turistas podem desfrutar da natureza em passeios em imensos veleiros, onde é possível conhecer toda a orla de um ângulo muito especial, aqueles dos primeiros navegadores. Nestes veleiros, é possível curtir bons momentos e provar uma boa comida a bordo durante os jantares noturnos promovidos nos navios enquanto eles estão atracados no cais.

CHINA – XANGAI
Várias cidades costeiras chinesas, como Xangai, abriram suas economias para receber investimentos privados, tornando-se molas propulsoras do desenvolvimento em suas regiões e impulsionando o crescimento econômico do país. A importância do porto de Xangai remonta à antiguidade devido a sua localização estratégica com o Mar da China a leste e a Baía de Hangzhou ao Sul, tendo acesso a três dos mais importantes rios da região: Yang-Tsé, Huangpu e Qiantang. O porto foi aberto ao comércio exterior após a derrota chinesa para o império britânico durante a Guerra do Ópio. A instalação do regime comunista no país em 1949 reduziu drasticamente o comércio exterior e toda a região portuária de Xangai passou por uma fase de degradação e abandono total. Durante as reformas econômicas iniciadas no fim dos anos 1970 a retomada do crescimento da região portuária foi assumindo um ritmo acelerado devido à descentralização do controle do governo. Hoje, Xangai é um centro financeiro global. O novo conjunto arquitetônico foi desenhado de forma a integrar os antigos armazéns, estaleiros, guindastes e toda antiga estrutura portuária antiga. O conjunto todo foi adaptado para uso comercial e passou a unir de maneira elegante e inteligente o antigo e o moderno.

ESPANHA – BARCELONA
O Porto de Barcelona, um dos mais importantes da Europa, passou por um extenso programa de revitalização e modernização. Durante os preparativos para os Jogos Olímpicos de 1992, a região tornou-se alvo de grandes investimentos imobiliários com o objetivo de criar espaços culturais e de lazer que pudessem integrar novamente aquela região esquecida ao cenário turístico da cidade. A orla de Barcelona, conhecida como Cidade Velha, seria devolvida à população, trazendo de volta o contato do povo com o mar. O complexo denominado de Port Vell, localizado em uma área central da cidade, oferece um espaço amplo e multifuncional com atividades ligadas à cultura, ao lazer e aos negócios. A região conhecida pela população da cidade como La Barceloneta nasceu voltada para o Mar Mediterrâneo e tem sua origem relacionada a fortificações militares da Idade Média, usadas para defender a cidade dos ataques de piratas e de outros reinos inimigos. O desenvolvimento de uma forte indústria de esportes náuticos também é uma interessante característica do projeto. O conceito de mobilidade urbana também está presente, o que inclui áreas livres de automóveis, ciclovias, pistas para caminhada e serviços de transporte públicos integrados a própria estrutura recuperada.

 

ENTREVISTA COM O GESTOR DO PROJETO, EDUARDO LEMOS.

O que os turistas e os moradores da cidade do Recife podem esperar receber como benefício após a implantação de todo o projeto?
Os Armazéns do Porto foi o primeiro equipamento do projeto Porto Novo Recife a ser entregue. Ele é mais uma opção de espaço de gastronomia e lazer para a população e para os visitantes que vêm ao Recife. Além dele, os demais equipamentos vão impulsionar o turismo de lazer e negócios, e ajudar a melhor estruturar o polo empresarial do bairro.

Gastronomia, cultura e diversão. Você acredita que esta é uma boa receita para o sucesso?
É uma combinação que dá certo, principalmente aqui, onde contamos com a beleza natural da cidade, com a riqueza histórica dos casarios do bairro do Recife Antigo, com a receptividade do nosso povo e com a gastronomia local que é bastante diversificada.

Que informações encontradas na pesquisa preliminar de mercado foram definitivas para tomar a decisão de seguir em frente com o investimento?
As pesquisas e os estudos identificaram de forma clara que existia uma demanda reprimida no mercado para esse tipo de empreendimento e que a localização do Porto do Recife era ótima para instalar um Festival Center. No entanto, há um componente subjetivo que não aparece nas pesquisas e que recai na falta de um polo turístico e de lazer que se integre aos demais equipamentos urbanos da cidade e que tem o Bairro do Recife como candidato natural. Gostaríamos de contribuir para ancorar esse polo.

Qual o impacto que a recuperação de toda área do antigo porto do Recife pode trazer para o mercado imobiliário daquela região?
O projeto vai valorizar os espaços da cidade, trazer novo fôlego para a região e todos saem ganhando com isso. Acreditamos ainda que todos os investimentos públicos e privados irão transformar o Bairro do Recife, valorizando os imóveis e atraindo mais investimentos, inclusive em moradia.

Quais são os principais desafios para tirar um projeto deste porte do papel e transformá-lo em realidade?
O volume de recursos é grande, precisamos de uma equipe focada e especializada e também temos que atender toda a burocracia que no nosso País ainda representa um grande empecilho, além dos desafios de uma obra complexa que preserva o patrimônio histórico.

Que equipamentos e serviços serão destinados ao segmento business dentro da área total do projeto?
Teremos as salas e escritórios no Armazém 9; o hotel no local onde eram o Armazém 15 e o antigo prédio da Conab; e o centro de convenções, nos Armazéns 16 e 17. O Armazém 9 abrigará um empresarial, o hotel vai atender também ao turismo de negócios e o centro de convenções terá um papel importante na atração de eventos empresarias para a nossa cidade.

Você acredita que o Projeto Porto Novo faz parte de uma ideia maior de recuperação que englobaria todo o centro antigo da cidade do Recife?
Sim. O Porto Novo Recife é um projeto que junto com outras ações do governo estadual e municipal, além da iniciativa privada, pretende retomar o turismo do bairro. Já temos o museu Cais do Serão, o Centro de Artesanato, o novo terminal marítimo de passageiros, o Centro Cultural do Correios, etc. Como já dito, os investimentos públicos e privados são complementares e transformam o bairro resgatando nossa história. O investimento privado não é uma ameaça. A ameaça é o abandono. O poder público mantem muitos equipamentos culturais na região, como esses que já mencionados, além de outros como a Torre Malakoff, os fortes, as praças, eventos e demais atividades. É natural que ele não consiga tocar tudo sozinho. A iniciativa privada vem para equacionar a questão, gerando impostos, contribuindo para o fluxo de pessoas e a melhoria da infraestrutura da área. A sustentabilidade econômica, assim como a ambiental e cultural devem ser contempladas para que haja perenidade.

Parceiros: