Design encanta, inovação surpreende

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A indústria de eletrodomésticos no Brasil é um bom exemplo da extrema competitividade que alguns segmentos vivem em seu dia a dia. Apesar de muitos concorrentes investirem pesado em alta tecnologia e eletrônica de ponta, eu acredito que essas não são as únicas armas para se conquistar o coração e mente dos consumidores em geral. São caras e complexas, demandando alto investimento em pesquisa e desenvolvimento. É aí que entra o design e a inovação.

Design é a competência de projetar um produto ou um serviço considerando todos os envolvidos com ênfase no usuário final, através da compreensão de suas necessidades e expectativas. Inovação é um processo de pensamento disciplinado, que busca desenvolver soluções diferentes das usuais, com adição de valor. Juntas, são ferramentas poderosas e flexíveis para alavancar bons resultados em qualquer negócio.

O que vemos hoje são as tecnologias se tornando commodities, havendo pouca diferenciação entre os produtos. Se observarmos a indústria automotiva, por exemplo, notamos que a maioria dos automóveis é muito parecida na entrega técnica: direção hidráulica, freios com ABS, câmbio automático, motores flex e potência não são mais diferenciais. A diferença está principalmente no desenho do veículo, nas linhas de sua carroceria e em como cada marca consegue se personificar, identificando-se com as expectativas do usuário. O mesmo vale para um refrigerador, uma cadeira ou uma caneta.

Vou além, quando lembro que design também é o projeto de um serviço, oferecendo ao usuário uma jornada agradável, fazendo com que volte e indique aos amigos. E isso pode ser encontrado num site amigável e de fácil interação, no atendimento de uma agência bancária ou no fluxo de um estabelecimento comercial, tornando-os mais atrativos que seus concorrentes.

Um processo desse tipo ajudou a Brastemp a explorar um novo modelo de negócio ao alugar o purificador de água em vez de vendê-lo. Com isso, criou uma relação com o consumidor que vai muito além da venda. Essa decisão levou a companhia a adquirir certas competências – como logística e relacionamento B2C, por exemplo – que permitiram o desenvolvimento rentável desse novo negócio, além de apropriar-se de conhecimentos que passaram a ser útil em diversas outras iniciativas da empresa.

E qual o custo disso? Costumo dizer que sempre que uma empresa se dispõe a lançar algo, seja um produto ou um serviço, um certo investimento será necessário. Mas o custo para se obter um bom ou um mau resultado é praticamente o mesmo. O tempo e o dinheiro necessários para planejar e executar com competência não é muito diferente, e muitas vezes a economia obtida num trabalho superficial e de pouca qualidade é consumida para corrigir o que não deu certo, sob risco de perda de todo o investimento.

Finalmente, abordo com muita ênfase a questão da qualidade do produto nacional. O mercado brasileiro tem tido cada vez mais a presença de produtos estrangeiros consagrados pela qualidade, das mais diversas categorias. Mesmo que a maioria das pessoas não possua esses produtos, elas os veem nas lojas, nas ruas e têm a oportunidade de comparar com similares mais acessíveis. Isso começa a criar um padrão que os empresários brasileiros mais atentos já perceberam o valor, começando a investir em qualidade sensorial, que é a aparência de um produto bem projetado e produzido. Isso gera um diferencial atrativo no ponto de venda antes mesmo do produto ser ligado.

Design e inovação são, em última análise, disciplinas que agregam muito valor a um produto ou serviço, com pouco ou nenhum custo extra. Ainda é pouco usada pela enorme maioria dos empresários brasileiros, seja por desconhecimento ou por acreditarem que custo baixo é a única forma de jogar em mercados competitivos. O Brasil está pronto para dar esse salto, possuindo um grande número de bons profissionais, com diferentes expertises, que podem certamente ajudar indústrias ou serviços de diferentes tamanhos a serem mais rentáveis, produtivas e competitivas em qualquer cenário.


MÁRIO FIORETTI

Sócio da Caleidoscópio I DIP, um bureau de design & inovação que presta serviços a empresas que buscam mais competitividade através do uso adequado dessas disciplinas centradas no usuário. Foi diretor de projetos da Whirlpool Latin America.

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