Inimigo número 1 da produtividade

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As empresas estiveram investindo pesadamente nos últimos anos em melhorias nos seus processos, na compra de melhores equipamentos, em estruturas cada vez mais sofisticadas de tecnologia da informação e acabaram se esquecendo de enfrentar um dos maiores inimigos da produtividade: o esgotamento profissional. Em um ambiente de negócios marcado por mudanças constantes e cobranças que chegam de todos os lados, o nosso organismo vive em permanente estado de alerta. Estamos o tempo todo em ação e o nosso gasto de energia para conquistar nossos objetivos vem se elevando a cada dia. Estes fatores, aliados ao pouco tempo de recuperação, vêm provocando um déficit constante em nossos níveis de energia e no balanço geral da nossa qualidade de vida.

E há quem diga que o profissional brasileiro, de certa forma “habituado” com períodos de crise econômica, tenha um temperamento mais preparado para situações do tipo. Ledo engano, de acordo com Ana Maria Rossi, presidente da seccional Brasil da International Stress Management Association (Isma). “Os profissionais brasileiros são extremamente estressados. 70% da População Economicamente Ativa sofrem de alguma forma de stress em diversas intensidades. Destes 70%, 30% deles estão no nível mais elevado de stress, que é o esgotamento físico e emocional. Isso significa que os seus recursos não estão sendo suficientes para lidar com as pressões e as demandas”, explica.

O esgotamento profissional, sinal inegável dos altos índices de stress aos quais somos submetidos todos os dias, compromete a produtividade e faz com que todo o investimento em infraestrutura feito pelas empresas não seja suficiente para manter níveis elevados de produtividade. É como se estivéssemos relegando ao segundo plano um fator importante, já que, mesmo com a revolução tecnológica dos últimos anos, as decisões e os processos na maioria das empresas ainda são tocados por pessoas que sofrem revezes emocionais. Altas doses de cobrança e pressão por resultados, nesse contexto, contribuem fortemente para transformar o ambiente de trabalho em boa parte das empresas em algo altamente tóxico para o ser humano.

Os principais sintomas do esgotamento profissional são o desânimo, a sensação de falta de realização com o trabalho, a falta de energia, e, em casos mais severos, a desilusão com a carreira e até mesmo a depressão. Quando estamos nesta situação, deixamos de investir em nós mesmos e em nosso crescimento, fato que desencadeia um desempenho ainda pior, gerando um sentimento de frustração e incapacidade. Em processo de retroalimentação, tais fatores comprometem severamente o desempenho profissional. Este coquetel explosivo de fatores provoca danos tanto a nível pessoal quanto profissional, o que pode tornar mais grave o quadro, isolando quem sofre desse tipo de problema até de pessoas queridas.

Segundo Ana Maria Rossi, o stress pode ter facetas positivas ou negativas, sendo muitas vezes uma questão de adaptação do profissional a novos cenários. Em casos de esgotamento profissional, também chamado de burnout, há alguns procedimentos que podem ajudar a lidar com a situação. “Em primeiro lugar, que a pessoa conheça suas limitações, que saiba sua frequência cardíaca, pressão arterial, respiração. Assim, em um momento de stress, a pessoa pode se monitorar. Em segundo lugar, que tenha disciplina para respeitar esses limites. Em terceiro, que a pessoa tenha um estilo de vida saudável, e isso inclui sono, atividade física, alimentação, tudo aquilo que a gente já sabe”, resume.

Cabe salientar que, muitas vezes, situações de esgotamento profissional surgem não por falta de competência, mas devido a fatores que as vezes fogem ao nosso controle. Em vários casos, estamos falando de uma carga horária inflexível que não permite que as pessoas produzam resultados nos seus horários de pico de energia, estruturas de promoção mais por favorecimento do que por mérito e líderes mal preparados. O tédio, a falta de autonomia para pensar de forma criativa e a rotina rígida de trabalho terminam, no longo prazo, esgotando as nossas forças e nos fazendo repensar escolhas e a própria trajetória profissional. Quando sentimos que não temos controle sobre o que fazemos, surge uma tendência natural a enxergar o trabalho como uma prisão e não como uma fonte de prazer.

Diante de situações de forte cobrança no ambiente corporativo, o papel da liderança é essencial na administração dos níveis toleráveis de stress. De início, o líder precisa monitorar o próprio nível de stress para evitar possíveis transferências aos colaboradores. Além disso, respeitar o limite dos funcionários também é de suma importância, completa a presidente da Isma Brasil, Ana Maria Rossi. Portanto, promover a sensação de justiça no ambiente de trabalho, ter critérios claros para as promoções, fazer com que as pessoas possam escolher como executar o seu trabalho e permitir que os resultados sejam alcançados respeitando as características individuais são alguns fatores que, reunidos, podem evitar o esgotamento profissional.

Para que todos saiam ganhando, também não basta apenas que a empresa faça a parte dela. O profissional também precisa aprender a recuperar sua própria energia em quatro níveis: físico, emocional, mental e espiritual. Ciclos de recuperação bem distribuídos ao longo do dia nestes quatro níveis nos ajudam a manter a unidade da energia e nos fazem ter um maior sentimento de controle e realização. Muitas vezes, cuidamos muito da nossa mente e investimentos boa parte do nosso tempo adquirindo novos conhecimentos (energia mental), mas nem sempre há preocupação suficiente em elevar a energia nos outros três níveis. Combater o esgotamento profissional é uma via de mão dupla: por um lado, a empresa precisa tomar os cuidados necessários para melhorar o ambiente de trabalho; por outro, temos que nos cuidar para equilibrar nossos níveis de energias em cada uma destas quatro dimensões.

 

ALIMENTAÇÃO
No rol de profissionais que “lideram” o ranking dos mais estressados, estão categorias que, não raro, sofrem até quando não estão trabalhando. Este é o caso de quem trabalha com segurança, por exemplo. Seja cuidando de bens ou de pessoas, esses profissionais costumam ter rotinas permeadas de pressão e incertezas. Várias vezes, problemas desta ordem também podem interferir em algo que tem uma relação próxima com o nosso stress: a alimentação.

Para a health coach Mariana Rocha, um indivíduo estressado invariavelmente acaba descontando na alimentação. Muitos começam a apresentar um apetite mais exacerbado, comendo rápido, sem respeitar o próprio metabolismo. Não raro, o temido ganho de peso surge como uma consequência natural. “Quando estamos estressados, é comum nos direcionarmos para alguns tipos de alimento, como o cafezinho, chocolate, doces, álcool. As mulheres, por exemplo, segundo estudos da Universidade da Califórnia, tendem a querer doces em períodos de stress”, afirma.

A dica, então, é adotar a parcimônia e tentar empreender hábitos alimentares saudáveis diariamente. Beber água durante o dia para manter uma boa hidratação do organismo, comer vegetais frescos e procurar alimentos leves para a noite são apenas algumas das dicas. Alguns alimentos podem ajudar nesse processo “anti-stress”, como abacate e banana. As duas frutas são cheias de potássio, que ajudam a manter a pressão sanguínea baixa e ainda deixam você mais tranquilo.

 

ALIMENTOS QUE AJUDAM A ALIVIAR O STRESS:

Camomila
O chá de camomila ajuda a acalmar. Em vez de tomar xícaras e xícaras de café, prefira um chazinho de camomila para seguir com a tarde. Um estudo na Universidade da Pensilvânia testou suplementos de camomila em pessoas com transtorno de ansiedade durante oito semanas e isso levou a uma queda significativa dos sintomas de ansiedade.

Chocolate
Para alegria dos chocólatras, além de ser irresistível e ter vários antioxidantes essenciais para a saúde, pesquisas indicam que o chocolate escuro, acima de 70% cacau, pode reduzir o hormônio do stress e ajudar a melhorar o humor com a liberação da serotonina. Ele ajuda também no bom funcionamento do coração ao reduzir a pressão arterial e melhorar a circulação sanguínea.

Folhas verdes
Magnésio, um mineral essencial para o nosso corpo funcionar sem problemas, ajuda os músculos a relaxar e também acalma os nervos. É encontrado naturalmente em folhas verdes, particularmente os folhosos, como espinafre e acelga. No espinafre é também encontrado o ácido fólico, que ajuda na produção de dopamina, uma substância do prazer que te ajuda a manter a calma.

Aveia
É um carboidrato complexo. De acordo com pesquisa do MIT, isso pode ajudar o cérebro a produzir serotonina, a mesma substância regulamentada por antidepressivos. Ela tem propriedades antioxidantes e cria uma sensação calmante que ajuda a superar o estresse. Sem contar que te deixa com sensação de saciedade por um período maior que outros carboidratos. Se comer um mingau de aveia pela manhã, garantirá um dia mais relax.

Caju
O caju é especialmente uma boa fonte de zinco. Os baixos níveis de zinco têm sido associados à ansiedade e depressão. Quando pesquisadores deram suplementos de zinco para pessoas que foram diagnosticadas com sintomas de ansiedade (irritabilidade, falta de capacidade de concentração) eles viram uma redução de 31 % na ansiedade.

Peixes gordurosos
O ômega 3, ácidos graxos, do salmão, sardinha e atum, são ótimos controladores do nível de adrenalina e ajudam a manter você em um estado calmo, tranquilo e sereno.

Frutas cítricas
Um estudo descobriu que uma boa dose de vitamina C ajudou as pessoas a se recuperarem mais facilmente de uma situação estressante. Tanto a pressão arterial e os níveis de cortisol diminuíram mais rapidamente em pessoas que receberam um suplemento de vitamina C, do que os participantes do estudo que receberam um placebo.

Frutas Vermelhas
São ricas em antioxidantes, que ajudam a combater os radicais livres e consequentemente fortalecem nosso organismo. São ricas também em vitaminas C, vitamina essa comprovada em ajudar na redução stress.

Cenoura
Comer alimentos crocantes ajuda a combater o stress. Alimentos ricos em nutrientes, como cenoura, aipo e outros vegetais frescos e crocantes ajudam a satisfazer a vontade de crocância e sacia a vontade de salgadinho e alimentos mais calóricos.

Iogurte
A próxima vez que você se sentir estressado, ao invés de correr para o pote sorvete, coma um delicioso iogurte puro.

Nozes
As nozes, amêndoas e pistaches, assim como o alho, ajudam a melhorar nossa imunidade com vitaminas e zinco.

Chá Verde
Mesmo contendo cafeína em certos tipos de chá, ambas as variedades pretas e verdes podem ajudar a relaxar. O chá verde contém um aminoácido chamado teanina, que tem sido associada à redução da ansiedade e promoção do sono.

 


ANA MARIA ROSSI

É PhD, presidente da ISMA-BR e copresidente da Divisão de Saúde Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria.

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