Jazztão: uma viagem criativa entre o jazz e a liderança

383
Compartilhar:
artigo_710x375px

Ritmo, harmonia e criatividade sempre foram elementos presentes em um dos gêneros musicais mais prestigiados de todos os tempos: o jazz. O ritmo nos deixou como herança o trabalho de verdadeiros gênios do improviso, como Dizzy Gillespie, Thelonius Monk, Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane, Wynton Marsalis e Duke Ellington, apenas para citar alguns. A música, além disso, sempre serviu de metáfora para o ambiente empresarial, sendo Peter Drucker o primeiro pensador de negócios a usar imagens do universo musical para falar de gestão e liderança. Em um artigo publicado em 1988, ele referiu-se à empresa como uma orquestra sinfônica e ao líder como maestro. Esta comparação foi válida durante muitos anos devido ao ambiente de negócios presente na época. Quando fez esta comparação, o ambiente dentro das empresas era outro e a realidade de mercado muito diferente do que é hoje. Naquele tempo, a rotina de trabalho era previsível e as tarefas que cada pessoa tinha que executar eram sempre repetitivas. As empresas estavam acostumadas a trabalhar olhando para dentro de si mesmas, sem dar muito valor ao que o consumidor desejava; em síntese, o foco da empresa estava no produto e não no cliente, o trabalho era centrado no individuo e o esforço para executar as tarefas se constituía em algo meramente físico. Além de tudo isso, os trabalhadores da época estavam limitados aos espaços físicos e aos horários da empresa para realizarem o seu trabalho.

Sendo assim, pensar a empresa como uma orquestra sinfônica e o líder como maestro fazia todo sentido. Para que as atividades fossem realizadas com perfeição e os resultados alcançados, cada pessoa tinha que cumprir rigidamente o processo de trabalho pré-estabelecido como se fosse uma partitura musical. A excelência na execução das tarefas era medida pela forma como as orientações do líder eram cumpridas sem desvios do padrão estabelecido. Um bom funcionário era aquele que executava suas tarefas de forma rígida sem questionar as ordens do seu líder. Na orquestra sinfônica, quem determina como a peça musical vai ser executada é o seu líder, o maestro. É ele quem zela para que a partitura seja seguida rigidamente sem que os músicos tenham espaço para mudar o ritmo, a harmonia e a melodia da música a ser tocada. Passados alguns anos, o ambiente de negócios foi mudando e o trabalho em equipe foi ganhando força, começaram as transformações na forma de trabalhar e o poder do líder começou a ser dividido. Neste ponto, as pessoas deixaram de ser vistas como meros subordinados e começaram a ser vistas como colaboradores, passando a serem corresponsáveis junto com o líder pelo sucesso da empresa.

No novo ambiente de negócios, a metáfora da empresa comparada a uma orquestra sinfônica e o seu líder como maestro vem perdendo força na maioria das organizações. Neste novo cenário empresarial, as mudanças são rápidas e imprevisíveis, as pessoas não executam apenas uma única tarefa. Elas são preparadas para executar múltiplas tarefas, o foco do negócio está centrado nos desejos do cliente e a empresa de hoje olha para fora para tentar enxergar as oportunidades de mercado. O trabalho em equipe é uma peça fundamental para o sucesso das estratégias empresariais, o esforço para buscar os resultados é fruto da capacidade criativa e do pensamento coletivo das pessoas envolvidas. Em linhas gerais, não há mais limites de espaço-tempo; hoje, podemos produzir e entregar nossos resultados a qualquer hora. De qualquer lugar. Estas mudanças forçaram as empresas a encontrar um novo modelo de gestão que estivesse mais alinhado com os novos desafios, e a música, mais uma vez, nos deu a imagem que melhor representa esta nova realidade e esta nova forma de liderar.

Chegamos a um futuro previsto há mais de vinte anos por Peter Senge em seu livro “A Quinta Disciplina”. Fazemos parte de empresas que aprendem, empresas da era do conhecimento, onde o principal produto é conteúdo, ideias e soluções. Neste novo cenário, o Jazz nos traz importantes lições sobre como produzir resultados diante de ambientes de incerteza usando a liberdade criativa como fonte de energia para produção de excelentes resultados empresariais. Uma banda de jazz é um organismo vivo que está em constante movimento, já que seus componentes não se limitam a executar apenas a sua parte da música. Eles improvisam e contribuem com o seu talento individual para a construção de um conjunto rítmico, harmônico e melódico único e especial que é fruto da soma da interação perfeita de todos os envolvidos. Existe uma visão errada de que o improviso presente nas apresentações de jazz é algo desorganizado e feito sem método. Os músicos de jazz conseguem improvisar soluções criativas porque possuem um forte entendimento do processo musical no qual estão envolvidos e por conta disto conhecem bastante o que estão fazendo. Para gerar resultados criativos precisamos dominar com inteligência cada aspecto da nossa operação antes de começarmos a buscar soluções diferentes para os problemas da empresa.

A qualidade do músico de jazz é avaliada pela sua capacidade de fazer experiências com as musicas que toca, ou seja, pela sua habilidade de improvisar sobre um tema. Nas empresas, não é diferente. A qualidade dos colaboradores é medida pela sua capacidade de se adaptar às mudanças, enfrentando os desafios do mercado para criar maneiras inteligentes de manter o fluxo do trabalho em movimento, gerando com isso alternativas criativas para solucionar os problemas da empresa sem perder de vista o foco nos resultados. Outro ponto importante é que a improvisação no jazz não está centrada em um único individuo, sendo fruto da interação dos talentos de cada membro do grupo. No jazz, a liderança é rotativa: assume aquele que tem mais habilidade para desenvolver determinado tema ou aquele que enxergou uma forma mais criativa de executar o improviso. Em uma banda de jazz não existe maestro, pois todos o são. A fluidez da liderança no jazz é um dos elementos fundamentais da natureza musical deste gênero. E a prova viva que todos podem liderar quando seguimos de perto a voz do nosso próprio talento.

Nas empresas modernas, planejamento e execução estão acontecendo ao mesmo tempo devido a ritmo cada vez mais intenso das mudanças. Por conta disso, precisamos ter a capacidade de dar respostas cada vez mais rápidas que não podem ser obtidas através das estruturas rígidas do passado. Temos que contar com equipes mais fluidas, que possam pensar e agir ao mesmo tempo sem separar o planejamento da execução. No caso do jazz, a percepção da oportunidade de melhoria é o que leva os músicos a improvisarem e a encontrarem caminhos diferentes para apresentar soluções musicais criativas para sua plateia.

Jazztão é colocar as forças criativas da sua equipe a serviço dos resultados, é permitir que as pessoas possam ver os seus talentos individuais aproveitados para agregar valor aos resultados do grupo, é criar um roteiro mínimo de ação e permitir que os músicos da sua equipe encontrem o melhor caminho para improvisar e executar de forma inovadora aquela melodia. É não se deixar vencer pela rigidez e pelo controle das estruturas, valorizando cada vez mais as oportunidades para se arriscar e criar caminhos empresariais e musicais que ainda não foram percorridos. É olhar para o que todo mundo vê e enxergar aquilo que ninguém ainda viu. Esta é a essência da criatividade gerencial: deixar sua equipe tocar até que você, como líder, deixe de liderar e passe a fazer parte verdadeiramente da banda.

 


JORGE MENEZES / jorge.menezes@radarexecutivo.com.br

É professor e pesquisador, especialista no desenvolvimento de competências para liderança e metodologias criativas de ensino.

Parceiros: