Os rumos do turismo em Pernambuco

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Em entrevista à Radar Executivo, o secretário Felipe Carreras falou dos principais desafios do setor no estado. 

Consolidar atrativos turísticos no interior e trazer o hub da Latam são algumas das metas traçadas pelo governo.

Exploração de pontos turísticos no interior, construção de um novo Centro de Convenções e a possível instalação de um hub da Latam. Esses são apenas alguns dos objetivos traçados pelo atual secretário de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco, Felipe Carreras. Em entrevista exclusiva à Radar Executivo, o gestor comentou sobre as ações do governo estadual para o setor em tempos de crise econômica, os principais desafios e as expectativas para o futuro.

Para alcançar as metas estabelecidas, a união do poder público com o setor privado tem sido essencial. Segundo Carreras, reuniões com representantes do trade turístico pernambucano são uma constante desde o início da gestão do governador Paulo Câmara (PSB). “Nós temos nossas reuniões ordinárias nos fóruns que acontecem com a periodicidade de quatro vezes, pelo menos, ao ano. Nós temos o Conselho de Turismo, o Contur: nesse semestre, já foram duas reuniões. E também os seminários que nós promovemos: foram 15 seminários nesses sete primeiros meses de 2015”, explica.

Nos próximos anos, projetos importantes para o setor turístico em Pernambuco devem ganhar corpo. A revitalização do Recife Antigo, por exemplo, é uma das obras mais aguardadas. De acordo com o secretário, a expectativa é que haja uma ocupação diferenciada da região, cuja principal oferta de serviços consiste, atualmente, em bares e restaurantes. Para Felipe Carreras, é preciso haver um “mix” de empreendimentos, o que já vem sendo feito. “A gente tem empresas que se instalaram, lojas que são referências no Brasil, marcas internacionais, grandes marcas nacionais. Não temos nenhuma dúvida (…) que a gente vai ter um novo bairro, que tem outra vida, um outro tipo de ocupação”, assevera.

Sobre o hub da Latam, Felipe Carreras afirma que Pernambuco está habilitado a sediá-lo. A expectativa é que esse empreendimento gere um investimento de cerca de R$ 4 bilhões no estado que o receber. No que tange a empregos, a previsão é de 10 mil vagas, um alento em momentos de cortes. Para o secretário, só o fato de o hub vir para o Nordeste já mostra que a região está consolidada como principal destino turístico no Brasil. “O Nordeste tem o dobro de intenções de viagem dos brasileiros com relação às outras regiões. Ou seja, o Nordeste já ganhou com esse hub mesmo ficando com essa disputa que existe entre Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará”.

Felipe Carreras foi secretário de Turismo e Lazer da prefeitura do Recife entre 2013 e 2014. Nas eleições do ano passado, foi eleito deputado federal pelo PSB-PE, mas se licenciou do cargo para assumir a função que exerce atualmente no executivo estadual.

Quais são os planos do Governo do Estado para aproveitar o potencial turístico de Pernambuco?

O Governo do Estado tem uma preocupação e uma atenção muito grande com a indústria do turismo em Pernambuco. O (ex)governador Eduardo Campos fez grandes investimentos não só a nível de promoção, divulgando Pernambuco como destino turístico no Brasil e no mundo, mas também na questão da estruturação e da capacitação. O governador agora, Paulo Câmara, que foi secretário de Turismo no governo de Eduardo, entende a importância da indústria do turismo no aspecto social, econômico, na geração de emprego e renda.

Então, nós temos aí como prioridade no estado, agora, desenvolver cada vez mais os potenciais que Pernambuco tem. Nós temos diversos atrativos, Pernambuco é um estado que tem uma rica cultura, gastronomia, turismo de sol e mar com a costa belíssima, e também a preocupação de divulgar Pernambuco por inteiro, desde o Sertão, ao Agreste, à Zona da Mata, à Região Metropolitana, com nossas praias. Então, a gente acredita que Pernambuco vai cada vez mais se destacar no cenário nacional, internacional, incrementar a renda dos pernambucanos, gerando emprego.

Quais pontos você acredita que precisam melhorar para que essa indústria turística de Pernambuco possa realmente gerar mais negócios para os empresários e mais renda para a população?

São três pilares básicos da indústria do turismo: a estruturação, a capacitação e a promoção. Nós temos ainda diversos atrativos no interior do estado, por exemplo, que precisam ser melhor estruturados. Eu poderia dar como exemplo Cimbres, lá em Pesqueira. É um distrito indígena aonde a gente recebe milhares de religiosos. Lá, em 1935, existiu a aparição de Nossa Senhora das Graças, onde a Irmã Délia e Maria do Socorro, duas jovens na época, disseram que viram a Nossa Senhora das Graças e isso leva diversos fieis.

Mas a gente precisa de uma estruturação melhor, promover melhor esse espaço. Nós estivemos percorrendo agora, no primeiro semestre, com os seminários Destino PE, nas 12 regiões do estado, aonde a gente identificou junto com a cadeia produtiva local diversos locais belíssimos que muitos pernambucanos não conhecem, que precisam ser estruturados, que precisam de capacitação e precisam de promoção. A gente acredita que ainda há muito o que fazer. Pernambuco já tem vários atrativos estruturados, a gente poderia citar o Litoral Sul, que é consolidado com Porto de Galinhas, com Muro Alto. Fernando de Noronha, que está entre os três destinos indutores de Pernambuco. O Ministério do Turismo considera que Pernambuco tem três destinos indutores: Recife, Ipojuca e Fernando de Noronha. Mas a gente acredita que tem outros locais também, principalmente no interior do estado, para que a gente venha estruturar melhor esses locais.

De que forma o Governo do Estado pretende envolver o trade turístico nas decisões políticos sobre o desenvolvimento do setor?

É de suma importância, é uma premissa do Governo do Estado, a gente ter essa aproximação com o setor produtivo. Com quem gera, com quem trabalha, com quem está ali na ponta na iniciativa privada, no setor hoteleiro, nas locadoras, nas agências de viagem, com as operadoras, com as companhias aéreas. Ou seja, com toda cadeia produtiva do turismo, com o trade turístico, a gente tomar as decisões tudo em sintonia. Isso tem sido feito. Nós temos nossas reuniões ordinárias nos fóruns que acontecem com a periodicidade de quatro vezes, pelo menos, ao ano. Nós temos o Conselho de Turismo, o Contur: nesse semestre, já foram duas reuniões. E também os seminários que nós promovemos: foram 15 seminários nesses sete primeiros meses de 2015. Nessa nova gestão, essa continuidade do governo Eduardo Campos, isso é fundamental. É o setor público fazendo sua parte, o Governo do Estado se aproximando das prefeituras, é a gente envolvendo a iniciativa privada e tomando as decisões sempre em sintonia, na forma correta de promover o destino. E também na forma de questões de incentivos, e isso a gente tem feito agora com nossa política de incentivos de atração de novos voos. Isso inclusive foi tema de debate com o trade turístico. O governador Paulo Câmara aceitou e hoje Pernambuco tem uma política de incentivo de novos voos que sem dúvida nenhuma será de fundamental importância para a gente consolidar o estado como destino turístico.

No passado, há cerca de dez anos, houve um movimento muito forte de trazer um investimento do empresariado para a região do Recife Antigo. E o que aconteceu depois é que não houve um trabalho de continuidade. De certa forma, o empresariado ficou um pouco frustrado. Na sua opinião, o que é preciso fazer para se evitar esse tipo de erro que houve no passado?

Tempos atrás, a gente teve aquele grande boom do Recife Antigo, onde vários e vários bares e restaurantes ocuparam ali a Rua do Bom Jesus, Rua do Apolo, Praça do Arsenal. Mas o que existiu ali foi uma ocupação com planejamento. Não existiu um estudo de mix de ocupação. Terminou que a gente tem ali vários e vários bares, vários restaurantes, tudo muito parecido, então aquela ocupação se deu, o povo ocupou, mas não se teve um cuidado de ter a ocupação da Ilha do Recife Antigo de forma estratégica, o que está sendo feito de forma diferente agora. Com toda requalificação da área portuária, a requalificação do terminal marítimo, a gente tendo um dos terminais mais modernos do Brasil, com empresas se instalando, o que não existia de forma consolidada como hoje. Há o polo tecnológico, um dos principais do Brasil. A gente tendo bares e restaurantes ali na parte do Cais, e dentro da ilha estabelecimentos de diversos perfis econômicos se instalando para que a gente venha a ter uma área sustentável, com uma presença forte durante o dia de equipamentos de diversos setores, à noite com estabelecimentos de entretenimento e que também não sejam iguais. A gente tem empresas que se instalaram, lojas que são referências no Brasil, marcas internacionais, grandes marcas nacionais. A gente não tem nenhuma dúvida, tendo um estado de mix, não permitindo que várias do mesmo segmento se instale, a gente vai ter um novo bairro, que tem outra vida, um outro tipo de ocupação, com ações como o Recife Antigo de Coração… A gente vai ter, sem dúvida alguma, quem conhece o Porto Madeiro lá em Buenos Aires, a gente vai ter um ainda mais bonito, mais atrativo e mais ocupado pelos recifenses, pernambucanos e pelos turistas, afinal de contas é indispensável para que possamos incrementar nossa economia.

Sobre a revitalização portuária no Recife, a gente sabe que vai ter uma obra que se estende pelo Forte das Cinco Pontas, Cais José Estelita, não é só o Recife Antigo. Gostaríamos que você falasse um pouco sobre esse projeto, como ele deve impactar a região e quais os prazos.

Isso vem endossar ainda mais o que a gente falou agora há pouco. Toda essa ocupação não só no Complexo Portuário Turístico Eduardo Campos, que foi dado o nome a toda aquela área que vai do Marco Zero ao Terminal Marítimo, mas também tem logo após a Ponte Giratória, a gente tem o Cais de Santa Rita, onde vai ser construído um hotel de bandeira internacional. A gente também vai ter um Centro de Convenções, que é também uma grande crítica do trade turístico ter um Centro de Convenções ali. Tem toda uma área que vai ser revitalizada no entorno do Mercado de São José. Para quem não sabe, é o mercado mais antigo do Brasil. A Prefeitura do Recife tem feito sua parte, o prefeito Geraldo Julio ordenando também, o próprio mercado vai passar por intervenções interessantes. É um mercado belíssimo e ali a gente encontra um pouco de tudo da nossa cultura, da gastronomia, do artesanato pernambucano. Então, essa ocupação será, sem dúvida nenhuma, de fundamental importância logo após a ilha, no Cais de Santa Rita, para que a gente possa trabalhar essa questão do mix.

Há um crescimento muito grande de dois tipos de turismo no mundo todo. Um deles é o turismo educacional e o turismo de negócios, que a gente já sabe que é uma vocação do estado. Quais são as políticas de governo especificamente para esses segmentos?

A questão do turismo educacional, a gente poderia citar Salamanca, na Espanha. Milhares de jovens vão estudar lá. E a gente tem aqui um polo tecnológico que é invejável. A gente vê muitos brasileiros jovens procurando escutar, entender, trabalhar aqui. A gente tem um celeiro de talentos. Não é à toa que a Fiat/Chrysler tem em Pernambuco não só a maior planta, com a marca Jeep, ela também vai ter um centro tecnológico, porque aqui sabe dos talentos que Pernambuco tem, das suas universidades, a Federal, a Estadual, e o setor privado também, formando diversos talentos. Então, a gente tem um polo que a gente consegue se destacar, é um grande diferencial no Norte e Nordeste.

E quando você fala do turismo de negócios, a gente tem vários segmentos interessantes. Pernambuco já lidera o turismo de negócios, com Recife e Região Metropolitana. A gente também não pode deixar de falar do polo médico, o turismo de saúde. Nós temos o segundo maior polo do Brasil. Nós temos um polo jurídico também extremamente interessante, com o Tribunal Regional Federal aqui em Recife. Nós temos muitos e muitos atrativos. Sobre esses turismos mencionados, o educacional e o de negócios, a gente tem se aproximado do trade, procurado entender melhor através da ciência, da pesquisa, para que a gente venha consolidar ainda mais isso e expandir, porque isso é fundamental para a nossa economia.

Recife hoje é um dos principais destinos de grandes eventos, sejam shows ou feiras, por exemplo. Recentemente, o governador Paulo Câmara anunciou um recuo momentâneo na ampliação do Centro de Convenções e isso gerou uma polêmica junto ao trade turístico local. Como está, hoje, essa ideia da ampliação do Centro de Convenções?

Nos três primeiros meses que assumimos a secretaria, nós reunimos o trade e, de forma muito clara e objetiva, a gente falou sobre a questão do Centro de Convenções, sobre sua requalificação e o projeto que existia. Então, a gente já falou que aquele projeto a gente não vai mais tocar. É um projeto que, na época, foi orçado em cerca de R$ 800 milhões. Se for atualizar para os dias de hoje, chega a R$ 1 bilhão. Ou seja, esse momento de crise macroeconômica que a gente está vivendo, o cenário que desponta para esse ano e para o ano que vem, é de muita dificuldade. A gente sabe que não vai ter condições de tocar essa obra. Então, todos já sabem com muita clareza, e é assim que a gente gosta de trabalhar, sendo transparente e verdadeiro, que a gente está buscando outras alternativas.

Nós já fomos através da iniciativa privada procurar ver quem teria interesse em explorar o Centro de Convenções atual e também construir um outro Centro de Convenções. Porque naquele projeto que foi pensado anteriormente, de praticamente dobrar o Centro de Convenções, a gente acredita que não é estratégico para o estado, na medida que a gente vive um problema muito grande hoje, que todos os grandes centros vivem, de mobilidade. Como que a gente vai dobrar um Centro de Convenções? Por exemplo, a Fenearte, que é a maior feira de artesanato da América Latina: a gente tem engarrafamentos constantes, por mais que as empresas de transporte municipal ajudem, que o Grande Recife (Consórcio) ajude, que os guardas de trânsito ajudem, a gente sabe que a quantidade de gente que vem e sai é muito grande. Então, a gente acha que precisa modernizar o Centro de Convenções e precisa ter um outro Centro dentro da Região Metropolitana, principalmente na Região Metropolitana Sul, onde a gente vai ter uma ocupação hoteleira muito interessante no período da semana, de segunda à sexta. Vai ter um outro tipo de ocupação. Isso está sendo visto, está sendo estudado. Tem gente interessada e em breve a gente vai anunciar um investimento extremamente interessante e estratégico para o governo de Pernambuco.

Na sua visão, quais seriam os principais desafios que precisam ser vencidos para alavancar os investimentos no setor de turismo e como o Governo pretende atuar para atrair esses investidores, tanto nacionais como internacionais?

Pernambuco já é conhecido nacionalmente e internacionalmente como o estado do fazer. Um estado que assume compromissos e que os cumpre. Não é à toa o volume de recursos que chegou em nosso estado. Pernambuco tinha um PIB 50 anos atrás de R$ 50 bilhões, e hoje a gente tem um PIB de cerca de R$ 120 bilhões. Isso não se deu à toa. A gente hoje tem refinaria, tem um polo farmacoquímico, a gente tem uma indústria naval – ninguém imaginava que Pernambuco estaria construindo navios. A gente tem a maior planta da Fiat/Chrysler no mundo, nós temos as três maiores empresas de bebidas do mundo (Itaipava, Ambev e Brasil Kirin), temos um setor de logística também que é destaque no cenário nacional. Tudo isso porque foram firmados compromissos e foi mostrado o potencial do estado.

Na indústria do turismo não é diferente. A gente vem crescendo ano a ano. Nos últimos oito anos, praticamente dobrou o número de turistas no mercado nacional e no mercado internacional. A gente mais que dobrou o número de voos. Então, a gente tem uma política de incentivo que é pioneira, que é a isenção de imposto do ICMS no QAV, o querosene do avião. O governador Paulo Câmara tomou essa decisão de coragem, e só toma esse tipo de decisão quem é político corajoso. Você tem uma renúncia de cerca de R$ 12 milhões por ano, é o que vai acontecer com as companhias aéreas TAM e Azul. Isso vai incrementar o número de voos nacionais em cerca de 15 voos por mês de cada companhia, com destinos internacionais que a Tam já opera por Recife. Buenos Aires é fruto dessa parceria, desse incentivo. A Azul em breve vai divulgar também. Isso permitiu que Pernambuco se habilitasse a receber o hub da Latam, vai ser um investimento de cerca de R$ 4 bilhões, com previsão de gerar algo em torno de 10 mil empregos. Então, é isso que Pernambuco tem feito.

A gente acha que está no caminho certo. Nós estamos nessa disputa desse hub, que eu não tenho nenhuma dúvida… Em primeiro lugar, foi um grande ganho para o Nordeste, para consolidar o Nordeste como destino turístico. Pesquisas do Ministério do Turismo apontam que cerca de 50% da população que pretende viajar dentro do Brasil escolhem o Nordeste. Em segundo lugar, vem o Sudeste com 25%. O Nordeste tem o dobro de intenções de viagem dos brasileiros com relação às outras regiões. Ou seja, o Nordeste já ganhou com esse hub mesmo ficando com essa disputa que existe entre Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. E a gente acha, com todos os atributos, com tudo o que a gente falou agora há pouco, que a gente vai ganhar esse investimento por parte da Latam, esse grande centro de conexões de voos nacionais e internacionais.

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