Para aprender inglês, pense em lazer

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Parte do dia a dia de um curso de inglês para adultos é ocupado com processos de avaliação do nível de possíveis alunos para encaminhá-los até a turma apropriada. Dentre todas as entrevistas que já realizei com esses alunos, algumas me marcaram bastante. Uma delas foi com a Rafaela. Inglês impecável, vocabulário, gramática e pronúncia. Tudo. Perguntei onde ela tinha estudado, e, para minha surpresa, ela nunca tinha frequentado um curso de idiomas. Então, perguntei em que país ela tinha morado. Mais incrível ainda, ela me respondeu que nunca tinha saído do Brasil. Obviamente, fiquei intrigado para entender como ela tinha adquirido tal fluência.

Descobri, então, que a Rafaela gostava muito de jogos online, e um em particular exigia que ela se comunicasse em Inglês no chat com outros jogadores. No início, ela usava um tradutor online e ia se virando. Quando o jogo teve uma atualização que permitia que os jogadores falassem em tempo real, em vez de escrever, ela se intimidou. No entanto, gostava tanto daquilo que, eventualmente, foi se aventurando e assim adquiriu um nível muito avançado. “Nem lembro mais que jogo em inglês”, disse.

Outra conversa semelhante se deu com um aluno chamado Carlos. Nível muito avançado e sem nunca ter feito qualquer curso. A experiência dele foi com música. O Carlos gostava de tocar violão, e gostava especialmente dos Beatles. Ele tocava e cantava todas as músicas decoradas. Não levou muito tempo até ele querer entender tudo o que estava dizendo. Quando fiz aulas de Francês, conheci uma garota que tinha aprendido o idioma para poder fazer um curso de gastronomia na França. Ela era professora no curso, e nunca tinha recebido instrução formal para aprender o idioma. “Aprendi cozinhando”.

O que essas pessoas têm em comum? O idioma não era a prioridade. E quando comecei a analisar, vi que fazia todo sentido. Se você parar e pensar, por quê existem idiomas? Simples e puramente para permitir a comunicação. Qualquer língua é sempre o meio, e nunca o fim. Quando foi a última vez que você teve uma conversa em português para ter uma chance de praticar o passado simples? O que interessa em comunicação é o assunto, e não o idioma em si.

 

Aqui, preciso ter cuidado.

Sou professor de Inglês e Sócio Diretor de um curso de Inglês para Negócios, voltado para o público adulto. E parece até que estou falando que meu trabalho não faz sentido. Não é isso. Acredito que essas pessoas que mencionei são pontos fora da curva. Acho que são poucos os que conseguem alcançar um nível tão alto em um segundo idioma depois de adultos, sem morar fora do país por um bom tempo ou sem o suporte de uma educação formal. Porém, uma lição muito válida pode ser extraída desses relatos.

Muitos alunos pensam que uma boa maneira de aprender inglês é comprando uma gramática e fazendo exercícios. Pode até ser. Desde que você goste muito de gramática. Outros me perguntam se a leitura é boa para adquirir vocabulário, e sempre respondo: “depende, você gosta de ler em português?”. Se a reposta for não, é muito provável que você vá gostar ainda menos de ler em outro idioma. “E filme sem legendas?”, também ouço. Mais uma vez, depende. Você gosta o suficiente de cinema para transformar seu lazer em estudo? Se a resposta mais uma vez for não, provavelmente você não vai conseguir dar continuidade.

Então, a pergunta-chave é outra. O interessante é se perguntar: “Por qual tópico sou apaixonado? Por quais assuntos tenho muito interesse? Qual a atividade que posso fazer que, não importa meu humor, sempre vou achar interessante?”. Algumas das respostas mais populares que já escutei: culinária, futebol, fotografia, cinema. E algumas não tão comuns: Lego, gibis, whisky. A grande vantagem de um idioma como o inglês é que, independentemente do tópico que lhe interessa, você vai encontrar uma grande quantidade de material ao seu dispor.

Aqui, um professor bem capacitado pode lhe ajudar a montar um plano de ação que funcione dentro da sua realidade. Da perspectiva pedagógica, é interessante que o plano inclua trabalho nas habilidades de compreensão auditiva (listening), fala (speaking), leitura (reading) e escrita (writing), focando mais nas suas deficiências ou no que é mais relevante para você. Se trocar e-mails em inglês no trabalho faz parte da sua rotina, um foco em escrita e leitura poderá ser maior que nas demais habilidades.

Um outro ponto que é muito importante observar é a parte prática do plano. Um plano que traz mudanças drásticas à sua rotina tem menos chances de dar certo, pois conseguir estabelecer novos hábitos é sempre mais difícil. Nesse sentido, o tempo no carro pode ser utilizado para ouvir algo como um podcast ou um audiobook. Muitas vezes, também é possível encontrar 15 minutos no horário de almoço – ou no tempo de espera ao visitar um cliente – para alguns exercícios de gramática. O único pré-requisito para esse tipo de abordagem é que você tenha um interesse genuíno e intenso no assunto escolhido, pois esse sentimento compensa pela dificuldade inicial de lidar com o idioma, principalmente se você está em um nível mais básico. Mas, em pouco tempo, você vai ver que you are doing it all in English.

 


LUCIANO LAPA

É sócio fundador da CEO English.

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