Sol, seca e uva: a saga das vinícolas do sertão nordestino

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Contrariando todas as expectativas, empresários do setor comemoram mais de duas décadas de sucesso no Vale do São Francisco.

Vinhos produzidos na região ganharam fama mundial e reconhecimento dos principais especialistas.

Seca, fome e miséria. Estas são as imagens gravadas no imaginário popular quando falamos do Sertão do Nordeste Brasileiro. Neste mesmo cenário, há quase 25 anos, um pequeno grupo de visionários teve a ousadia de enxergar a região como uma terra de oportunidades. Estes desbravadores enxergaram a louca possibilidade de produzir vinhos finos, de altíssima qualidade, às margens do rio São Francisco. O tamanho das barreiras para este empreendimento fez da ideia algo nunca antes pensado: a visão foi de tamanha ousadia que poucos foram aqueles que levaram a sério o projeto. Hoje, mais de duas décadas depois, a produção de vinhos no Vale do São Francisco ganhou fama internacional e o reconhecimento dos maiores especialistas do mundo.

“Os vinhos do Vale do São Francisco já ocupam um excelente posicionamento no mercado, mas seguimos comunicando a região, que ainda é novidade para muitos brasileiros, já que a região brasileira mais tradicional na produção de vinhos é o Rio Grande do Sul. Nossa linha Terranova, por exemplo, tem excelente aceitação por parte do consumidor. Hoje, são mais de 2 milhões de litros entre vinhos, brandy e espumantes em 200 hectares de vinhedos próprios no Vale do São Francisco”, explica Flávio Durante, enólogo do grupo Miolo.

Esses empreendedores continuam às margens do Velho Chico, só que agora são vistos como visionários, assediados pelas vinícolas europeias e americanas que querem entender como se faz para ter duas safras e meia de uvas por ano de uma doçura e delicadezas dignas dos melhores vinhedos do Velho Mundo. Esta façanha dos Vinhos do Sertão não veio a preço baixo: foram necessários anos de trabalho duro, de muitas barreiras culturais rompidas e de uma paixão pela arte de produzir vinhos que deixa emocionado o coração de quem lê a aprende a contar essa história.

O Sertão do sol ardente e da caatinga agora produz riqueza que é apreciada em todo Brasil e em muitos lugares do mundo. Riqueza que gera emprego e renda, que prende o homem do campo as suas origens, que traz o progresso e a qualidade de vida para uma população tão sofrida. Enquanto que nas regiões tradicionais de cultivo de uva há apenas uma safra anual, no Nordeste do Brasil, graças ao clima quente e seco com muitas horas de sol por dia, é possível colher a fruta praticamente o ano todo. Os vinhos do São Francisco foram destaque no prestigiado jornal americano New York Times e receberam elogios calorosos de Jancis Robinson, colunista do Financial Times, uma das críticas de vinhos mais influentes da atualidade e única mulher a receber o íitulo de Master of Wine no mundo. Ela, inclusive, é a encarregada de supervisionar a adega pessoal da Rainha Elizabeth II. Este reconhecimento é fruto da persistência, da visão dos empresários do vinho e da união entre a iniciativa privada e os governos locais.

Marcas como Terranova, Botticelli e Rio Sol conseguiram romper barreiras culturais do consumidor brasileiro, que ainda prefere apostar, muitas vezes, em marcas chilenas e argentinas. O Rio Sol, por exemplo, foi eleito o melhor vinho brasileiro em 2004 no II Concurso Internacional de Vinhos, realizado em Bento Gonçalves. Foi também o primeiro vinho brasileiro a receber 83 pontos no ranking da conceituada revista Wine Spectator. O mesmo rótulo foi eleito o melhor vinho de 2006 pela Revista Gula e fez parte da Carta de Vinhos servidos ao Papa Bento XVI durante a sua visita ao Brasil.

“Produzimos vinhos de altíssima qualidade no Vale do São Francisco, que dedicamos, na verdade, à produção de espumantes. São espumantes mais jovens e frutados, que agradam ao paladar especialmente dos brasileiros. O Grupo Miolo reúne mais de 350 premiações em concursos nacionais e internacionais”, orgulha-se. A marca Rio Sol está sendo exportada para mais de 20 países, entre eles Itália, Alemanha, Suíça, Áustria e Portugal. “No Vale do São Francisco (BA), temos um clima vitícola muito quente, de noites quentes e de seca moderada e forte, dependendo do período do ano. A irrigação é a operação mais importante na região e hoje já conhecemos as variedades que melhor se adaptam, o que faz com que tenhamos o manejo certo para elaborar espumantes cada vez melhores”, completa o enólogo.

A próxima etapa a ser vencida na saga dos empresários do vinho do Vale do São Francisco é obter a concessão de Indicação Geográfica. Trata-se do primeiro passo para chegar ao nível mais seleto de classificação DOC (Denominação de Origem Controlada), que indica a origem e o controle de produção de vinhos em determinado território geográfico. Os grandes vinhos italianos, portugueses e franceses são reconhecidos pela sua origem e por isso possuem um alto valor de mercado. Conseguir esta distinção será o reconhecimento máximo dos vinhos do Sertão. Os produtores de vinho do Vale do São Francisco, no entanto, ainda precisam superar a falta de informação do consumidor, o que leva ao preconceito contra as marcas produzidas no país, além de ter que lidar com as alíquotas de importação que permitem a entrada de vinhos de países do Mercosul com preços muito baixos.

O enoturismo, gerado por pessoas que viajam exclusivamente para determinada região para saborear os vinhos produzidos naquele local, tem crescido em toda região do Vale do São Francisco e pode ser também uma outra alternativa de rentabilidade do negócio. Esta nova fonte de receita tem feito com que muitos empresários donos de vinícolas comecem a investir em restaurantes, salas de degustação e até mesmo Pousadas de Charme para receber turistas atraídos pelo cultivo da uva e pela produção dos vinhos. “No Vale já existe uma Rota do Vinho, que passa por visitas à Embrapa, no Centro Tecnológico da Uva e do Vinho, além das vinícolas, claro. Mas, principalmente conta com o Vapor do Vinho, que é um projeto inaugurado em 2011 e está trazendo milhares de turistas para a região. O Vapor do Vinho é uma parceria entre as empresas Fazenda Fortaleza (Fruticultura de Uva e Manga), Vinícola Terranova (Miolo Wine Group) e o Vapor do Vinho (Barca Rio dos Currais)”, ressalta Flávio Durante, da Miolo.

Tendo tudo isso em vista, o que sugerimos ao leitor, então, é que, antes de pedir um vinho chileno ou argentino, seja tão ousado como os empresários do Vale do São Francisco: peça um vinho do Sertão.

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