Veneza e Recife: cidades ligadas pelas águas e pelo cinema

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Produção cinematográfica em Pernambuco teve seu primeiro impulso ainda nos anos 1920.

Na década seguinte, nascia em Veneza um dos festivais de cinema mais badalados do mundo.

Engana-se quem acredita que Recife, a Veneza Brasileira, e a Veneza verdadeira guardam em comum apenas as coincidências urbanísticas e geográficas, já que são cidades formadas por um conjunto de ilhas, cercadas de águas e ligadas por belas pontes. A sétima arte também une as duas. Em Veneza, acontece um dos mais prestigiados festivais de cinema do mundo, o badalado Festival Internacional de Veneza. A história do evento começa ainda nos anos 1930, durante a 18a edição da Bienal de Veneza, um evento que tinha como objetivo fomentar todos os tipos de arte: música, pintura e a nascente arte do cinema. Em Pernambuco, a produção cinematográfica local teve seu primeiro grande impulso mais cedo, ainda nos anos 1920, com o chamado Ciclo do Recife.

Foram 13 longas-metragens rodados entre 1923 e 1932, com destaque para nomes como Jota Soares e Edson Chagas. O segundo ciclo, o do Super 8, já na década de 1970, reuniu gente como Jomard Muniz de Brito. Nesse momento, foram cerca de 250 filmes, basicamente documentários e filmes experimentais. A primeira tentativa de reunir essa produção local aconteceu com o 1º Festival de Cinema Super 8 do Recife, em 1971. Entre os filmes de maior sucesso deste ciclo: Valente é o Galo (1974), de Fernando Spencer, O Palhaço Degolado (1976), de Jomard Muniz de Brito, Esses Onze Aí (1978), de Geneton Moraes Neto e Paulo Cunha, e o último filme deste ciclo, Morte no Capibaribe (1983), de Paulo Caldas.

Mais recentemente, o Cine PE, outro festival local de apoio à sétima arte, só que desta vez com uma pegada muito mais nacional, também galgou seu lugar de destaque junto aos grandes festivais. Para Alfredo Bertimi, um dos organizadores, o evento tem algumas diferenças com relação a outros festivais. A principal delas, conta, é “um esforço de mobilização produtiva para levar, sobretudo, a produção nacional que não chega às telas convencionais de cinema. ”Somos um festival, o que significa dizer que deveremos respeitar todas as tendências estéticas. Temos um grande público e a confiança de muitos produtores, diretores e artistas espalhados pelo país. Esses são nossos tesouros”, complementa Bertini.

Apesar das discrepâncias com o Cine PE, o Festival de Veneza guarda algumas semelhanças com o estado pernambucano. A começar pelo nome da premiação entregue aos vencedores da mostra, o Leão de Ouro. O prêmio foi criado para homenagear a bandeira e o brasão de armas da cidade, onde se vê um leão amarelo retratado. A bandeira da cidade do Recife também retrata um leão dourado e o estado de Pernambuco é conhecido como o Leão do Norte. Cinema e rios, estes são os pontos de convergência que aproximam estas duas belas cidades conhecidas pelo seu cenário e pela produção cultural.

Em Pernambuco, os anos 1980 revelaram uma nova geração de cineastas locais que despontaram no cenário nacional e internacional. Este grupo foi muito influenciado pelo movimento Manguebeat. Se o mangue saiu dos rios e invadiu as rádios do Brasil, as salas de cinema viram surgir uma nova proposta de fazer cinema: contestador, multifacetado, orgânico e ancestral, trazendo para as telas os conflitos e as mazelas de uma sociedade em plena mutação. Deste grupo de rebeldes, surgiram figuras de destaque, entre eles Paulo Caldas e Lírio Ferreira, diretores de Baile Perfumado (1996). Cabe destaque, ainda, Amarelo Manga (2003), de Cláudio Assis, além de Árido Movie (2005) e Cinema, Aspirinas e Urubus (2006), de Marcelo Gomes.

Mais recentemente, a safra de diretores pernambucanos ganhou fôlego novo, com gente como Kléber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro, Tião, Marcelo Pedroso e Daniel Aragão. A criatividade e proatividade de nossos cineastas e dos envolvidos no setor, claro, são os elementos-chave de o cinema pernambucano estar tão em alta. Ou continuar em alta? A Veneza original certamente se orgulha da sua irmã brasileira.

Cabe ressaltar, também, que muito dessa retomada da produção local se deve às condições criadas pelo poder público, por meio das leis de incentivo. Para se ter uma ideia, por meio do Funcultura, foram disponibilizados recursos da ordem de R$ 11,5 milhões de reais entre 2011 e 2012, sendo este o maior valor já disponibilizado para investimentos no setor de produção audiovisual em Pernambuco. Perguntado sobre o que falta para o Recife se inserir de vez como um grande centro de produção e divulgação na área, Alfredo Bertini reconhece os avanços em termos de políticas públicas, mas é taxativo: “Ainda há muito que se fazer. Afinal, o setor é complexo, tem uma dimensão econômica pouco revelada e precisa ser compreendido de modo plural. Detalhes que exigem aspectos diferenciadores no aperfeiçoamento dessas políticas”.

 

ENTREVISTA COM ALFREDO BERTINI

Quais os maiores desafios para manter vivo um festival do porte do CINE PE?
Após 18 anos de realizações de festivais, sinto que os desafios se renovam a cada ano. Para quem acompanha de longe, parece que é fácil concebê-lo e geri-lo. No entanto, as adversidades são enormes, sobretudo nos últimos anos. Além do desafio de se buscar a manutenção dos patrocínios que existem e de conquistar novos parceiros em uma economia instável e num modelo muito burocrático, é preciso se manter atualizado para que se efetive uma programação que agrade a todos os gostos. O desafio da gestão anual é enorme, porque a cada ano tem-se essa luta pelos patrocínios culturais, cada vez mais escassos e ainda submetidos aos rigores de uma burocracia insana. Chega-se ao ponto hoje de se ter o produtor cultural completamente “amarrado” às políticas públicas, que os submete, na maioria das vezes, a atrasos de liberações, quando não contingenciamento de verbas. Em paralelo a esse desgaste, a necessidade de se conceber um modelo de programação para um público exigente e submetido a diversas formas de concorrência. Em suma, diante desses desafios, só mesmo a motivação pelo trabalho e o apego a causa cultural, que fazem com que os produtores encarem essa situação. A cultura neste país precisa ser respeitada na sua pluralidade, com políticas distintas e com respeito ao empreendedor.

Qual a história de bastidores mais curiosa que já ocorreu durante a montagem do festival?
Há muitas histórias, que já as retratei, por exemplo, de forma minuciosa, no livro que escrevi para comemorar os 10 anos de atividades. Mas, para não perder o trem, lembro aqui das emoções passadas pelos grandes filmes que fizeram com que mais de 3 mil pessoas se espremessem nas dependências do [Teatro] Guararapes, no Centro de Convenções. E muitos e muitos casos que foram tensos ou hilários, partes integrantes da nossa história. Imagina por exemplo você ter que segurar a plateia com uma atração no palco, enquanto o filme, novíssimo, estava desembarcando no aeroporto. São muitas as histórias…

Em sua opinião qual o verdadeiro DNA do cinema Pernambucano e como a produção local pode dialogar com as produções cinematográficas que estão sendo feitas em outros locaisdo país e do mundo?
O cinema de Pernambuco é hoje uma referência nacional, fruto do talento artístico dos nossos diretores e artistas. Compõem hoje um nicho muito especial que é representado pelo cinema autoral, de qualidade estética reconhecida internacionalmente. Claro que o talento desses profissionais se aliou aos ventos favoráveis das políticas públicas nascidas nessa fase de retomada, que veio da metade dos anos 90. Mas, vejo também que há um pouco do Festival nessa composição vitoriosa, até quando ele foi o único mecanismo de integração entre os que aqui fazem cinema com os que vêm de fora. Todo esse conjunto, que compõe a cadeia produtiva do setor no estado, é um caso de sucesso.

Quais são os 5 fatores-chaves para o sucesso de alguém que deseja abraçar o desafio de se tornar produtor cultural no Brasil?
Dados os desafios anuais já relatados, é preciso ter 5 “P’s”: projeto, planejamento, paciência, persistência e padrão.

Como você enxerga o momento atual do cinema pernambucano com a chegada de polos de tecnologia como o Porto Mídia?
Esse é mais um desafio de complementaridade e integração que precisa ser considerado, dentro dessa visão plural que tanto enuncio. Há muito que possa ser pensado, sobretudo, com a superação dos que receiam encarar a cultura como importante ente econômico da cidade.

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